sábado, 28 de abril de 2012

O incrível caso do homem que substituiu o coração por um de papel e plástico.

A história que vou contar não consta nos anais de medicina, tampouco já foi sequer comentada ou citada em algum noticiário de tv ou digna de alguma linha na imprensa escrita, e tudo porque para muitos, de fato, ela pareça absurda. Dizem que certa vez houve um homem, e acredito que seja verdade, pois eu mesmo o conheci; ou penso que sim, não estou muito certo, que desde a mais tenra juventude sofria de dores agudas e contínuas no coração das quais por muito tempo nunca soubera a causa. Nunca apresentou, durante a infância, qualquer sintoma que indicasse o mau funcionamento do órgão, pelo contrário: viveu intensamente os lúdicos tempos de inocência da primeira idade.
Aconteceu que com o passar dos anos começou a sentir, no princípio de forma atenuada, dores nesse órgão vital ao funcionamento do organismo. Por pobreza e descuido nunca pensou em consultar um cardiologista, acreditava ingenuamente se tratar de algo comum a todos, tanto que durante a sua adolescência essas dores nem mesmo chegavam a incomodá-lo, e dessa forma passavam despercebidas.
Porém, a partir de um determinado período (e aqui começam as exceções e absurdos dessa narrativa), essas dores começam a se tornar mais fortes e constantes. As dores até então simples mal estar, tornam-se cada vez mais incômodas, de simples palpitações, e às vezes uma leve falta de ar, começam a afetar sua vida, até então normal. Nesse período esse homem, já que a esta altura já não era mais um garoto, começa a sentir-se progressivamente incomodado com as dores no seu órgão vital e tenta, em vão, amenizar essas dores com tratamentos paliativos desenvolvidos por ele mesmo, dos quais incluía desde doses, mal dosadas, de Filosofia e Poesia pós-moderna mal interpretada, até a defesa de posições políticas que depois se tornaram frustrantes diante do fracasso de determinadas ideologias, no entanto, mesmo diante do sofrimento causado pelas dores, que se tornaram cada vez mais forte, nunca apelou para medidas desesperadas como a autoajuda e a metafísica religiosa, o que provavelmente o teria levado a um estado vegetativo.
Com o passar dos anos e sem contar com o apoio de nenhum especialista, somente com raras dicas de “não-especialistas” bem intencionados e de ilustres defuntos que repousavam em sua estante, começou uma autoanálise na tentativa de descobrir, ele mesmo, as causas de seu problema. E aconteceu que um belo dia (se me permitem usar essa expressão tão ultrapassada e sem sentido) ele chegou à conclusão de que suas dores tornaram-se mais intensas e incomodas a partir de um determinado momento em que começou a ingerir de forma gradativa e despercebida doses de sonhos e desejos que, a princípio, lhe pareciam não só inofensivas como benéficas, já que a maioria das pessoas “bem intencionadas” vivia a indicá-las a os demais como sendo algo saudável e recomendado para o bom viver.


Foi então que depois dessa fantástica descoberta percebeu que aquele seu órgão, tão vital à manutenção dos demais, estava na verdade contaminado por uma substância que era produzida em outro órgão e que, como soube depois, às vezes se desloca de seu local de origem provocando a infecção de outros órgãos, principalmente o coração, e, nesse caso, por ser ele o responsável pela circulação sanguínea, todo o organismo é contaminado, impossibilitando assim qualquer tratamento que propiciasse uma cura definitiva, o que só era possível com uma cirurgia através da qual seria substituído o órgão infectado por outro que, além de são, deveria ser feito de uma matéria que fosse imune a um possível contágio, dessa forma a substância nociva produzida pelo outro órgão continuaria na corrente sanguínea, porém sem contaminar o novo coração, e após um determinado período esta substância deixaria de ser produzida pelo organismo.
E foi assim que esse homem, hoje já de meia idade, passou a viver com um coração feito de uma matéria imune a qualquer contágio, já que por ser construído de fibras de papel e plástico extremamente flexível, não só pode ter qualquer mancha ou nódoa apagada com uma simples borracha, desenvolvida especialmente para esse fim, como possui uma flexibilidade para suportar impactos que o coração natural não poderia suportar, haja vista os frágeis músculos que o compõem.
Atualmente esse homem vive parcialmente tranquilo, após anos de sofrimento e angústia. Como essa cirurgia é condenada pela Organização Mundial de Saúde, já que a sua legalização prejudicaria de forma drástica o mercado farmacêutico, principalmente o de calmantes e antidepressivos, além de outros setores que lucram com a dor ou tem nela a manutenção de suas divisas, ele prefere não revelar onde e com quem fez a cirurgia, mas garante que os resultados são extremamente positivos, embora admita que o período de adaptação ao novo órgão seja extremamente doloroso, já que o corpo está acostumado às substâncias produzidas pelo antigo, mas que, segundo ele, com o passar do tempo, vão gradativamente desaparecendo juntamente com os incômodos iniciais.
Sei que pelo desconhecimento da maioria em relação a tais procedimentos cirúrgicos, e por não revelar nomes, em virtude da preservação moral e legal das fontes, muitos não darão crédito a esta história, a o que sou completamente indiferente. Porém somente reproduzo o que me foi revelado e por isso sou capaz de jurar, pela virgindade de Alice, que em nenhum momento alterei fatos ou informações recebidas diretamente dos envolvidos no caso.
 Texto escrito por José Nilton.  

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Dividindo-se

Saiu correndo em direção ao banheiro. Trancou-se lá e deixou jorrar um pranto desesperado. As paredes, únicas testemunhas, refletiam o som abafado de seu gemido. Ele tentava se recompor, mas não havia jeito de controlar toda aquela emoção que há tempos estava contida. Do nada, esmurrou a parede com força sem se quer sentir dor. O ódio lhe roía as entranhas e por pouco não foi ao encontro de seu algoz, o único capaz de deixa-lo naquele estado. Passado alguns instantes sentado, com a cabeça entre as pernas, foi sentindo-se um pouco mais sereno. Respirou profundamente e aos poucos foi recuperando o equilíbrio. Enxugou as lágrimas, lavou o rosto e ficou ali em frente ao espelho. Repentinamente lhe veio uma vontade estranha de conversar com seu reflexo.
- É meu caro, você está chegando ao fim da linha. Não tem mais para onde correr. É preciso tomar uma atitude e mudar tudo a sua volta.
E após um longo “diálogo” com o espelho, teve a sensação de sentir-se dividido em dois. Era como se fossem dois Cristianos. Por fim chegou à conclusão que um deles precisava descansar e sair de cena e o outro, cheio de energia, sem passado algum e sem perspectiva alguma assumiria o “posto”.
E a partir daquele momento, quaisquer críticas, desaforos e agressões sofridas, eram sumariamente destinados ao Cristiano um. Ele, o dois, não tinha absolutamente nada com aquilo e como estava apenas de passagem, estava adorando toda aquela novidade. O Cristiano dois enxergava tudo colorido, era tudo tão novo, tão surpreendente que ele não entendia como o Cristiano um encontrava tantas dificuldades em viver bem.
Mas a melhor parte era ver o Sr. Mário, seu algoz que tinha como prazer humilhá-lo preferencialmente em público, ficar com aquela cara de interrogação ao ver que sua vítima não o levava mais a sério. O Cristiano dois até se divertia com tudo aquilo. Mas o Sr. Mário não era fácil e um belo dia adentra abruptamente no banheiro o Cristiano dois e em frente ao espelho clama desesperadamente pelo três.

sábado, 7 de abril de 2012

A esperança é a última que morre.


Olhou-se no espelho do banheiro e percebeu um vinco em sua testa. As olheiras estavam bem destacadas e suas pupilas baixas davam à sua face um ar de alguém que desistira de viver. Pensou em voltar para a cama, mas logo mudou da ideia. Resignadamente abriu o guarda roupas e começou a se vestir. Dirigiu-se até a cozinha e serviu-se do café frio do dia anterior enquanto observava pacificamente seu fogão coberto por uma mistura de óleo com farinha de trigo. Por optar em usar pratos e talheres descartáveis, não havia louças sujas. Quando abriu a porta que dava para o quintal, surpreendeu-se com que viu. Suas plantas estavam secas e haviam muitas folhas caídas pelo chão. Mas o que o chocou, foi ver seu cachorro que estava totalmente esquelético e que de tão fraco nem se quer foi capaz de levantar-se para dar seus típicos pulinhos de alegria. Além disso, seu quintal estava repleto de fezes do seu cão e o odor delas provocava tamanha ânsia, que ele conseguiu vomitar apenas a bile, graças a seu estômago vazio.  Sentiu-se tomado por um enorme desgosto, mas ao mesmo tempo, percebeu que ele não era assim tão inútil como muitos diziam. Suas plantas e seu cão dependiam dele para viver. Pensando assim, saiu pelas ruas pisando firme e cheio de dignidade, em busca de uma boa ração para seu cão.
 No caminho, não pode deixar de notar a surpresa estampada no rosto dos vizinhos, que receosos o cumprimentava friamente. Continuou seu trajeto e já chegando próximo à casa de ração, cruzou com uma senhora que segurava pela mão uma menina que devia ter uns sete anos. Essa menina o encarou com um profundo olhar. Ele até se sentiu invadido, pois ela parecia que enxergava todo o seu vazio interior. De repente ela abriu um lindo sorriso e ele não teve como não a comparar com um anjo. Repentinamente sentiu-se invadido por uma alegria tão grande que lhe deu uma estranha vontade de pular. A esperança havia lhe atingido em cheio. E assim saltou lembrando até uma bailarina. Saltou uma, duas e na terceira vez, seu pé torceu violentamente e ele desiquilibrado caiu chocando estupidamente sua cabeça contra o meio fio. O sangue que escorria tinha um vermelho vivo que contrastava com aquela face já pálida. E o espasmo acabou por deixa-lo com um sorriso que lembrava o daquela menina.