domingo, 28 de outubro de 2012

O Sogro


 
 

Enfim o fatídico dia havia chegado. Era o momento de Sidney conhecer o “sogrão”. Seu coração palpitava como uma britadeira. Ao chegar ao portão, suas pernas ficaram imóveis e um sentimento aterrorizante o tomou por completo. Respirou fundo, tirou o lenço do bolso e enxugou sua testa umedecida pelo excesso de suor. Sentiu uma vontade imensa em desistir e sair dali correndo, mas como era homem de palavra, não podia voltar atrás. Apertou o botão da campainha com seu dedo flácido e o som que a mesma emitiu foi tão fraco quanto seu desejo. Em segundos saiu Rosana, a responsável por tudo aquilo. Estava mais linda do que nunca e isso o encorajou um pouco. Ao adentrar a casa, passou a vista rapidamente pela espaçosa sala e de cara viu um porta retrato que ele presumiu ser seu sogro. Ele vestia uma farda camuflada e empunhava uma pistola nove milímetros. Petrificado, Sidney nem percebeu que por três vezes seguidas Rosana lhe pedia para sentar. De repente uma voz hostil veio surgindo da cozinha e uma enorme sombra antecedeu a chegada do falante. O Coronel tinha quase dois metros de altura e era dono de um corpo esguio. Sua expressão era dura e ele não conseguia disfarçar sua contrariedade:


- Então, você que é o tal Sidney?

- Sim, sim , sou eu sim. Muito prazer! – Esticando seu braço para cumprimentar o Coronel.

- Prazer, a tá , prazer. – O coronel o cumprimentou deixando sua mão completamente destroçada.

- Rosana, vá até minha adega e traga um Merlot. Não precisa ser de uma boa safra não.

Aproveitando a ausência momentânea da filha, o Coronel foi tratando logo de dar seu ultimato.

- Escuta aqui seu maloqueiro. Se você pensa que vai ficar só na curtição com a minha princesinha, você está muito enganado. Não fui com a sua cara e vou marcar cerrado. Não vou te dar sossego. Só aceito essa situação para não contrariar minha filha que já sofreu demais com a morte da mãe.

Nesse momento a filha retorna e nota que o clima entre os dois ainda não estava amistoso.

Com o vinho, Rosana trouxe também um dvd de um show que Sidney havia lhe emprestado. Enquanto o pai se encarregava de abrir a garrafa, Rosana colocou o dvd para rolar. Após o brinde o Coronel ficou olhando indiferente para a tv. De repente, após Bono Vox ter terminado sua parte na canção Miss Saravejo, surge Pavarotti com sua voz estupenda cantando a plenos pulmões. O pai repentinamente cai em pratos, deixando os dois presentes atônitos. O Coronel sem conseguir conter-se já em soluços confirma com Sidney:

- Esse dvd é seu mesmo?

 Sidney responde relutante:

- Sim, é meu.

E o Coronel com um sorriso emocionado diz:

- Então me dá logo um abraço vai. Seja bem vindo meu filho!

 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Catarse


É bom demais ter deixado de ouvir o som daquela voz de sempre, dizendo-me as mesmas coisas como se fosse um disco arranhado. Aquela voz que tanto me torturava, dilacerava minha alma com extrema facilidade. Eu era assim, um masoquista, que mesmo desconfiado, deixava-me seduzir acreditando piamente naquelas mentiras. Mas a verdade mesmo que tardia, repentinamente emergiu e assim, pude enfim notar a face do meu algoz. Era uma face  cansada e triste que tinha um olhar endurecido. Ele que no passado havia se aproveitando das minhas decepções sofridas e se instalado sorrateiramente em meu interior, coitado! Foi expurgado com a mesma facilidade que entrou.

sábado, 20 de outubro de 2012

Libertação


Ao sair da igreja, notou que não sentia seus pés, até mesmo a fome que lhe corroía as entranhas havia passado. O vento soprava intensamente indicando que estava por emergir um possível dilúvio. Mas Eugênio não se deteve e continuou seu trajeto. Aliás, ele até preferia que chovesse, talvez para limpar de vez sua alma, essa que já se encontrava quase alva. Sentia-se flutuar sobre as calçadas com seus passos vagarosos. A alegria enfim havia lhe tomado por completo.

Passando em frente a um sobrado, ouviu os gritos de uma mulher no interior da casa clamando por socorro. A rua estava deserta e Eugênio permaneceu alguns segundos imóvel diante da casa. Os gritos acompanhados de pancadas foram se aproximando do portão. E ele rapidamente pensou:

- Quer saber, não tenho nada a ver com isso. Custei para me libertar daquela agonia e agora que me sinto bem não vou botar tudo a perder.

E saiu em disparada se esquecendo das palavras que mais havia ouvido naquela noite:

Amor ao próximo.