quinta-feira, 27 de junho de 2013

Alto-mar


Estou a navegar em águas calmas;

Sem expectativas e arrebates;

Deslizando friamente sem solavancos;

Meu barco segue à deriva;

Por esse mar de aconchego e serenidade.

 

Misteriosa


Aura enigmática que me fascina!

Tento aos poucos achar a ponta do novelo;

Montar o quebra-cabeça;

Mas as peças não se encaixam;

Minha matemática há tempos deixou de ser exata;

E eu não saio do zero;

Não avanço;


segunda-feira, 24 de junho de 2013

Vingança Natural


Após o término do filme, saiu correndo pelo quintal rumo ao jardim de sua avó. Parou repentinamente em frente a um pé de dália e simulou o golpe dado por Van Damme no filme que acabara de assistir. O chute giratório deitou ao chão a indefesa planta. Olhou ressabiado ao seu redor e percebeu que não havia testemunhas. Nesse instante, ouviu ao longe a voz da avó que o chamava para tomar o café da tarde. Com as mãos no bolso, adentrou a cozinha com ar angelical. Sentou-se a mesa e mexeu com a colher o achocolatado. Nisso percebeu que estava sozinho na cozinha. Bebericou com cuidado o quente achocolatado enquanto sua avó entrava furiosa na cozinha.

- Foi você quem quebrou meu pé de Dália, moleque?

- Eu vó? Imagina que eu ia fazer isso!

- Só estamos eu e você aqui, a não ser que tenha sido sua mãe quando saiu. Coisa bem pouco provável.

- Vó, deve ser que enroscou uma pipa na planta e os meninos puxaram com força, vai saber.

Nesse instante o moleque sentiu uma fisgada imensa em sua virilha e começou a se despir desesperadamente. A avó ficou atônita, sem entender aquela cena. De repente cai ao chão a responsável por aquele momento vexatório: uma pequena abelha que havia entrado através da boca da calça do menino quando esse golpeou a flor onde a abelha repousava.


Pronto, a avó já não tinha mais dúvidas que o menino era culpado, haja vista que as dálias eram o lugar preferido das abelhas. O que lhe intrigou por anos foi tentar entender como a abelha havia se instalado naquele íntimo lugar. O menino era outro intrigado.


sábado, 15 de junho de 2013

Sempre em frente



Não foi desta vez.


Com passos claudicantes, dirigiu-se ao guichê. De frente com a indiferente atendente, titubeou por um instante, enquanto sua mão trêmula, ansiosamente procurava dentro do bolso da surrada camisa, o pedaço de papel. Com a voz embargada perguntou ao mesmo tempo em que entregava o papel à moça:

- Esse senhor trabalha aqui?

- O Doutor Wesley trabalha sim. Aliás, ele é do dono desse consultório. O Senhor tem hora marcada?

Repentinamente o velhinho agarrou-se ao balcão evitando que seu corpo fosse de encontro ao chão. Apavorada, a atendente deixou o interior do balcão e o acudiu, levando o para um sofá ao lado do balcão. Pegou uma prancheta e começou a abanar o pobre velhinho que taciturno, só respondia agora as perguntas da atendente com movimentos da cabeça.

- O senhor está só?

Sinalizou que sim.

Veio se consultar? – perguntou ela, já sabendo que pelo vestuário daquele pobre senhor, seria fora de cogitação.

Após longa hesitação, sinalizou que não.

- Ah! O Senhor havia perguntado sobre o Doutor Wesley. Só um instante que vou chamá-lo.

 A atendente saiu em disparada pelos corredores do recinto a procura do doutor. Quando voltou acompanhada do intrigado Doutor Wesley, percebeu que o velhinho havia deixado a sala de espera. Saiu até a calçada olhou para ambos os lados e nem sinal do velhinho. Quando voltou, surpreendeu-se com a cena que presenciou:

 Doutor Wesley sentado no sofá com a cabeça entre as pernas, chorando copiosamente, enquanto murmurava:

- Pai, será que o senhor me perdoou? Por que não me esperou? Por quê? Por quê?